
A Tribuna percorreu, na manhã desta terça-feira (16), bairros da Zona Leste de Juiz de Fora, a região mais atingida pelas chuvas de segunda-feira (15), e encontrou ruas cobertas de lama, móveis e roupas empilhados nas calçadas, além de moradores contabilizando prejuízos estruturais e perdas de objetos pessoais. Das 123 ocorrências registradas pela Defesa Civil, 87 foram na Zona Leste.
O Bairro Linhares registrou o maior volume de chuvas, com acúmulo de 112,13 milímetros nas últimas 24 horas, e 27 ocorrências atendidas pela Defesa Civil. Já o Vitorino Braga foi onde houve maior concentração de atendimentos, um total de 34, conforme informado pela Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) à Tribuna.
Os estragos são visíveis aos que transitam pela região, como é possível ver nos registros feitos pela reportagem. “Acabou com tudo. Geladeira, fogão, televisão, tudo que puder imaginar. A água subiu 1 metro e meio. Tivemos que tirar a dona do imóvel no colo”, diz o ex-morador do Vitorino Braga, José Roberto Guimarães, 75 anos, que estava no local para ajudar os amigos. Ele cresceu no bairro e tem memórias de diversos episódios no qual a região ficou toda ilhada. “Isso aqui é uma bacia. Vem água de São Benedito, Santa Cândida, Grajaú, Linhares. Precisa ser feito algo para escoar essa água.”
Roupas de moradores ficam expostas na rua após enchente (Foto: Leonardo Costa)
Os moradores escutados pela Tribuna também reclamaram sobre o descarte irregular de lixo e as bocas de lobo entupidas que contribuíram para os alagamentos das ruas do bairro. A proprietário de uma loja na Avenida Garibaldi Campinhos, no Vitorino Braga, Katia Rios, diz que é a segunda vez que a situação se repete nos últimos três anos. “Nós perdemos 80% da nossa loja. Não sei o que faremos para refazer o estoque. E tem pessoas que perderam muito mais que eu. Que Deus nos dê força para recomeçar.”
Há 25 anos, Paulo Brás, 65, vive na Rua Francisco Faria, no Bairro Bonfim, que foi severamente afetado pela chuva. “É a terceira vez que cai essa rua. A nossa garagem foi embora. Tinham três carros, consegui salvar, mas quase cai junto.” Segundo ele, os moradores já alertavam há tempos para o risco de novos desmoronamentos no local. “Tudo o que estava dentro da garagem foi embora, tinta, aspirador de pó, ferramentas, materiais de construção… não foi pouca coisa não.”
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Danos estruturais no Linhares

Moradora do Linhares desde que nasceu, Luciana Ribeiro, 47, afirma que nunca viu estragos como os registrados desta vez. Mesmo já tendo perdido parte da casa em anos anteriores, ela diz ter se assustado com a proporção da chuva de segunda-feira. “Nunca passei por isso. Mesmo quando caiu meu barranco, não vi nada do tipo. Estava tudo alagado, perdemos tudo. Meu neto foi boiando na enxurrada, uma vizinha que pegou ele.”
A casa de Linamara de Oliveira, 37, e seu esposo Tiago Marques, 40, na Rua Diva Garcia, no Bairro Linhares, foi inundada poucos minutos após o início da chuva. Segundo Tiago, o nível subiu rapidamente, trazendo não apenas água, mas também barro, o que levou a família a deixar o imóvel às pressas e se abrigar no terraço. Ele conta que chegou a ouvir estalos no piso da casa, gerando medo em relação a segurança da estrutura do imóvel. De acordo com o casal, a casa deles foi interditada até a passagem das chuvas intensas.
O casal mora no local há cerca de cinco anos e afirma que esta foi a segunda enchente enfrentada pela família. “A água entrou pela rede de esgoto e por baixo da casa, com muita força. Chegou no ponto que eu falei para a minha esposa: ‘não, entra lá, não, quero que você veja como ficou a nossa sala, que tínhamos acabado de reformar e deixar bonita”, relata Thiago.
Eles questionam a falta de soluções definitivas por parte do poder público para problemas antigos de drenagem e escoamento da água na região. Segundo a família, estruturas como tubulações e manilhas estariam danificadas ou inadequadas, o que favorece o retorno da água e do esgoto para dentro das residências durante períodos de chuva intensa. Eles afirmam que já registraram diversas solicitações junto à prefeitura e aos órgãos responsáveis, mas dizem que, até o momento, as intervenções realizadas não foram suficientes para evitar novos alagamentos.
O irmão de Linamara, que também mora no terreno, Jefferson Rodrigues, destacou que a situação se agrava com a impermeabilização do solo e a falta de um sistema eficiente de drenagem. Ele afirma que a força da água chegou a comprometer o contrapiso e o piso da residência, causando prejuízos materiais significativos. “O que acontece é resultado de ações de dez anos, 20 anos, não tem a ver com o que acontece hoje.” A família informou que acionou a Defesa Civil e aguarda avaliação técnica para saber se poderão retornar às casas, além de avaliarem a possibilidade de buscar seus direitos diante dos danos causados.
Maior chuva em 143 anos, argumenta Prefeitura
Conforme a Prefeitura, o volume de chuva registrado, apenas na segunda-feira (15), é “equivalente a cerca de um terço de toda a chuva esperada para o mês de dezembro, cuja normal climatológica é de 310,4 milímetros”. Ainda segundo a Administração, tempestades como esta última “ocorrem a cada 143 anos, caracterizando-se como uma ocorrência extrema”.
Diante do grande número de ocorrências, a Prefeitura afirma que a prioridade da Defesa Civil, no momento, é prestar atendimento às famílias afetadas pelas chuvas, cuja quantidade não foi divulgada pelo Executivo. Além disso, a Administração afirma que equipes do Demlurb estão mobilizadas para o trabalho de limpeza das ruas e recolhimento de móveis e eletrodomésticos que estão inutilizados. “A Secretaria de Obras (SO) atua nos serviços estruturais mais urgentes, como controlar e iniciar a recuperação das erosões verificadas no Bairu e no Jardim do Sol. De outro modo, a secretaria também atua na manutenção de bueiros e bocas de lobo, com a remoção de material acumulado pelas chuvas”, complementa a PJF, em nota.
A Prefeitura entende que o “volume muito elevado de chuva concentrado em um curto intervalo de tempo” é a principal causa dos danos em Juiz de Fora. Além disso, a Administração afirma que “constatou um volume significativo de lixo nas vias públicas, o que agrava os efeitos da precipitação já intensa no cenário urbano”.

